No final de fevereiro deste ano, a Tesla anunciou junto com a chegada do Model 3 de U$35.000 (o modelo mais barato da montadora) um update de software para a versão de maior autonomia do carro. Os donos ganharam um aumento de 24 km de alcance (passando de 498 km para 523 km).

24 km pode não parecer muito, mas lembre-se que isso foi feito somente com software. Os donos não precisaram ir para uma concessionária para adicionar componentes novos, trocar a bateria ou passar o ~scanner~ USB no carro. A atualização veio pela internet, de graça (não exatamente de graça, mas você entendeu, né?).

Isso é algo bastante novo para a indústria automotiva. Carros sempre foram equipamentos majoritariamente mecânicos com uma eficiência que normalmente só tendia a piorar com o passar do tempo. Melhorias estiveram quase sempre condicionadas à modificações ativas nos carros.

Quer mais perfomance no seu Gol 1.0? Coloque uma turbina (não faça isso). Quer assistir um DVD de um show ao vivo enquanto encara o trânsito de São Paulo? Só instalar ali na loja de som do Seu Jão. Quer ficar de cabeça livre e não se preocupar com o seu carro parado na rua? Só instalar um rastreador, alarme e corta ignição.

A Tesla é a Apple dos carros?

Como você provavelmente já sabe, o lançamento do iPhone em 2007 mudou completamente a indústria dos celulares. Steve Jobs e sua equipe apostaram em um aparelho que não tivesse a maior parte de suas funcionalidades atreladas ao hardware.

Ao invés de lotar o dispositivo de botões físicos, a Apple experimentou usar uma tela sensível ao toque (que não era algo novo, elas existem desde o final da década de 60) e software para pegar os inputs do usuário, usando um teclado ou botões digitais. Olhando em retrospecto essa é a escolha que mais faz sentido nesse contexto. Software pode ser atualizado de forma fácil, rápida e barata.

Os aplicativos que você baixa da App Store ou Google Play são o ápice dessa mudança de paradigma. Você está deliberadamente adicionando novas funções ao seu celular, escolhendo aquelas que mais te agradam.

E não é por acaso que a Tesla coloca telas gigantescas em seus carros. Elas servem o mesmo propósito que os engenheiros da Apple buscaram ao criar o primeiro iPhone.

O botão que liga o ar condicionado do seu carro fica em uma posição não muito ergonômica? Sinto muito, mudar isso vai exigir bem mais que um sinal WiFi acessível. Se algo assim acontece em um Tesla, uma simples atualização de firmware pode dar um jeito no problema.

Novas funcionalidades nem sempre dependem de novo hardware

A Apple poderia atualizar o que quisesse no software do primeiro iPhone, mas não poderia fazê-lo executar tarefas que exigem componentes físicos diferentes. O primeiro iPhone capaz de usar conexões 4G foi o iPhone 5, por exemplo.

A mesma limitação atinge a Tesla, obviamente. Vejamos um exemplo prático – você provavelmente já viu alguma notícia por aí de pessoas que largaram cachorros dentro de carros ao sol e transeuntes precisaram quebrar os vidros para garantir que os bichos não morreriam sufocados. A Tesla resolveu esse problema com uma atualização de software.

O “Dog Mode” deixa o ar condicionado ligado, o carro trancado e mostra aos transeuntes defensores de animais qual a temperatura no interior do carro e que o dono dos bichinhos estará de volta em breve. Ninguém letrado vai querer quebrar o vidro do seu Tesla e os cachorrinhos estarão seguros enquanto você dá uma passadinha no mercado.

Você pode fazer isso com o seu Celta 2005 1.0. Mas você vai precisar de uma chave extra, afinal, o ar condicionado de carros a combustão depende do funcionamento do motor. E mesmo assim; você não quer deixar seu carro destrancado, com a chave na ignição e ligado enquanto você vai às compras, né?

O fato dos Teslas serem elétricos permite que o sistema de ar condicionado funcione de forma independente do motor, além de não gerar gases que seriam tóxicos em ambientes fechados, como uma garagem.

É uma funcionalidade simples, extremamente útil, e que não exigiu uma visita à concessionária ou à loja do Seu Jão.

Alguns meses atrás, Musk comentou no twitter que pretendia fazer um “Party & Camper Mode”, uma atualização para melhorar o uso que os donos de Teslas já estavam dando aos carros.

O espaço interno do Model S permite a colocação de um colchão pequeno na parte de trás com bastante conforto, o que pode ser uma boa se você planeja fazer uma viagem longa, por exemplo. Ter luzes, renovação de ar e energia para carregar o celular ajudam bastante quem quer fazer isso.

Veremos isso em outras marcas?

O setor automotivo é bastante lento para responder à mudanças de mercado. O surgimento da Tesla tem trazido algo que vai além de carros de qualidade – a empresa criou uma tendência que exige das montadoras mudanças expressivas em seus produtos.

Mesmo os carros 0 km mais caros aqui no Brasil não oferecem NADA próximo das funcionalidades dos carros da Tesla. As centrais multimídia são opcionais caríssimos e com interfaces que fazem até o UX designer mais inexperiente vomitar de desgosto.

Mas com um mundo tão conectado e cada vez mais necessidade de inovação, acredito que veremos mudanças nesse quesito, mesmo por aqui.

Autor

Aspirante a comunicador científico fascinado por foguetes e exploração espacial. Odeia quando mergulham a bolacha no leite.

Escreva um Comentário