Depois de anos de desenvolvimento, falhas e testes, a SpaceX está na reta final para devolver aos Estados Unidos a capacidade de lançar seus próprios astronautas ao espaço. A data do primeiro voo tripulado ainda não está definida, mas provavelmente acontecerá em Maio e levará Bob Behnken e Doug Hurley para a Estação Espacial Internacional.

Cápsula Crew Dragon que levará os astronautas Bob Behnken e Doug Hurley à ISS.

O país se tornou totalmente dependente dos foguetes Soyuz desde a aposentadoria dos ônibus espaciais, em 2011. O Commercial Crew Program da NASA deu o suporte e investimento necessário para que a Boeing e a SpaceX desenvolvessem soluções independentes para o problema.

Well… yes.

E, contrariando todas as expectativas, a “pequena SpaceX” parece estar meses à frente da empresa tradicional e experiente. O que é um choque bastante intenso para uma indústria tão fortemente enraizada nos sucessos do passado.

A filosofia de desenvolvimento tão criticada da SpaceX parece ter funcionado muito melhor, mesmo com a empresa tendo recebido 40% a menos de investimento em comparação com sua “adversária”.

O In-flight Abort Test

Diferentemente da Boeing, que preferiu provar a segurança de seus sistema através de simulações e certificações, a SpaceX decidiu por conta própria realizar uma simulação real.

No dia 19 de Janeiro, um Falcon 9 decolou do complexo de lançamento 39A, levando a cápsula Crew Dragon para um de seus testes mais importantes. Cerca de 84 segundos após a decolagem, a cápsula ligou seus poderosos motores SuperDraco e se desprendeu do foguete.

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Crew Dragon se desprendendo do Falcon 9 durante o teste de abortamento.

Pouco tempo depois do desacoplamento, o módulo da espaçonave contendo os paineis solares, radiadores de calor e estabilizadores aerodinâmicos também foi ejetado. A capsula então se estabilizou perfeitamente e acionou sua sequência de paraquedas tranquilamente.

O In-flight Abort Test é importantíssimo por que demonstra a capacidade de uma nave de sair de uma possível situação de perigo até mesmo no ponto mais crítico de um lançamento – o Max-Q, ou “ponto de máxima pressão aerodinâmica”. Este é o momento do voo onde a combinação entre a densidade ainda significativa da atmosfera e a velocidade do veículo fazem com que as forças em questão sejam as maiores possíveis.

Gráfico demonstrando ponto de máxima pressão aerodinâmica.
Gráfico demonstrando ponto de máxima pressão aerodinâmica.

Se uma cápsula demonstra capacidade de sobreviver a este cenário crítico, ela consequentemente demonstra que conseguirá resistir em momentos mais “amenos” do voo e será capaz de salvar a vida dos astronautas em uma situação de perigo.

E, como esperado, logo após a separação o Falcon 9, já desprovido de estabilidade aerodinâmica, sofreu durante alguns segundos e acabou explodindo.

Falcon 9 explodindo durante teste de abortamento de missão com a Crew Dragon.
Falcon 9 explodindo durante teste de abortamento de missão com a Crew Dragon.

As falhas nos testes da Boeing

Starliner no topo do Atlas V, dias antes do lançamento.
Starliner no topo do Atlas V, dias antes do lançamento.

Enquanto a SpaceX comemora seus recentes sucessos, a Boeing lamenta seus recentes (e talvez preocupantes) fracassos.

A primeira falha de software da Starliner

Um dos requisitos da NASA para certificar que os veículos desenvolvidos pelas duas empresas são capazes de levar astronautas em segurança para a ISS é um voo orbital de teste com direito a rendezvous e docking com a ISS. O mesmo que a SpaceX fez alguns meses atrás.

O teste com a Starliner foi feito em 20 de dezembro de 2019. Um Atlas V colocou a cápsula em órbita perfeitamente. Mas, assim que ela se separou e começou sua jornada sozinha, uma falha de software fez com que ela fizesse várias manobras desnecessárias, gastando boa parte do seu combustível antes que percebessem o que havia de errado.

Starliner após o pouso em White Sands, New Mexico.
Starliner após o pouso em White Sands, New Mexico.

Então, apesar de ter chegado em órbita, a Starliner não pôde atracar com a ISS e acabou ficando apenas 48 horas no espaço, fazendo alguns testes de sistemas antes de reentrar.

A segunda falha de software da Starliner

E depois de 2 meses da missão não-tão-bem-sucedida, a informação de que um segundo bug foi encontrado enquanto a Starliner ainda estava em órbita veio à tona.

Se não tivesse sido corrigido antes das manobras reentrada, a anomalia faria com que a separação do módulo de serviço ocorresse de forma descoordenada, possivelmente fazendo com que os dois objetos se chocassem, danificando o escudo de calor e talvez levando a uma impossibilidade de reentrada.

Apesar da SpaceX também ter sofrido uma falha inesperada durante um teste em solo alguns meses atrás, as coisas não estão nada tranquilas para a Boeing.

A contratação de William Gerstenmaier

William Gerstenmaier

Uma das críticas mais comuns à SpaceX durante o desenvolvimento do Crew Commercial Program gira em torno de sua bagagem/experiência e suas filosofias de segurança.

As falhas inesperadas da cápsula da Boeing e o custo extra de 40% do seu programa de desenvolvimento deram à SpaceX um ponto de confiança extra – Algo bastante necessário quando o assunto envolve a confiança dos políticos que decidem os orçamentos dos programas espaciais.

E em meio à tudo isso, a SpaceX ganhou mais um ponto de confiança ao contratar William Gerstenmaier, o antigo chefe de voos tripulados da NASA. Tendo trabalhado por mais de uma década em diversos programas da NASA, o famoso engenheiro espacial levará um pouco de sua vasta experiência para a SpaceX.

Gerstenmaier também foi um dos responsáveis pela decisão de manter duas empresas competidoras no Commercial Crew Program em 2014, enquanto a Boeing fazia lobby para ficar com todo o fundo de investimentos.

Apesar de desejar que a Starliner resolva seus problemas e também encontre sucesso, não posso negar que adoro ver a empresa underdog mostrando do que é capaz.

Autor

Aspirante a comunicador científico fascinado por foguetes e exploração espacial. Odeia quando mergulham a bolacha no leite.

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