Em mais uma demonstração internacional de tamanho de jeba, a Índia achou que seria uma boa ideia testar seus mísseis anti-satélite em um alvo real. O acontecimento foi recebido com bastante preocupação por várias personalidades da indústria espacial, incluindo Jim Bridenstine, atual chefe da NASA.

No dia 27 de março o primeiro ministro da Índia, Narendra Modi, declarou que o país havia destruído com sucesso um satélite indiano a 300 km de altitude com um míssil lançado de uma base terrestre.

Apesar de ser preocupante e demonstrar uma crescente militarização do espaço, o feito é impressionante. Um satélite a essa altitude precisa de uma velocidade de mais ou menos 28 mil km/h para se manter em uma órbita estável. Atingí-lo com um míssil disparado do chão requer uma precisão minuciosa. O menor erro nos cálculos de ajuste de trajetória colocaria o míssil a vários quilômetros de distância do alvo.

A índia usou um tipo de ASAT chamado de kinetic-kill, que usa apenas a energia cinética para cumprir seu propósito. A essa velocidade explosivos são completamente irrelevantes – mesmo algo tão pequeno quanto uma bola de gude faria estrago o suficiente para inutilizar um satélite em órbita.

A China também destruiu um satélite

A China fez o mesmo em 2007, destruindo um satélite meteorológico a uma altitude de 865 km. O país recebeu duras críticas internacionais quanto à militarização do espaço e a quantidade de destroços criados.

Não que eles liguem. Para um país que lança foguetes do meio do continente logo acima de zonas habitadas e frequentemente causa incêndios em casas de moradores, fazer os 750 kg do satélite virarem destroços é fichinha.

O teste chinês criou mais de 2.000 destroços traqueáveis (com o tamanho mínimo de uma bola de golfe), e mais 150 mil partículas menores. Uma parte desses destroços já saiu de órbita e queimou na atmosfera, mas uma parte considerável vai continuar lá em cima por um bom tempo – talvez até algumas décadas.

A Síndrome de Kessler

Se você assistiu o filme Gravidade, sabe o que é a Síndrome de Kessler. Mas caso não tenha visto, ela é propõe que, pela quantidade de satélites atualmente em órbita, uma colisão com um detrito poderia gerar um efeito cascata que inviabilizaria totalmente o uso do espaço por um bom tempo.

Uma grande quantidade de detritos em órbita geraria colisões com satélites, que gerariam mais detritos, que gerariam mais colisões, e mais detritos. Até o momento que seria virtualmente impossível entrar em órbita sem esbarrar em uma nuvem de partículas minúsculas viajando em velocidades absurdamente altas.

Mas podemos ter esse problema mesmo sem explodir um satélite em milhares de pedaços. Depois que colocamos o primeiro objeto em órbita, o Sputnik em 1957, a quantidade de satélites para os mais variados propósitos só aumentou.

Sem o devido cuidado, é só questão de tempo até alguns deles se chocarem, como aconteceu em 2009 com o Iridium 33, um satélite de comunicação, e o Kosmos-2251, um satélite militar russo. A velocidade do impacto foi de cerca de 42 mil km/h.

Alguém precisa ficar de olho nos objetos que estão em órbita para evitar que isso aconteça. E é isso que a Space Surveillance Network faz, traqueando, catalogando e identificando objetos em órbita do planeta, avisando a NASA quando um deles entra em rota de colisão com a Estação Espacial Internacional, por exemplo. É quase um flanelinha do espaço.

Lidar com lixo espacial é um grande problema para o futuro da nossa espécie. E eu fiz um vídeo inteiro sobre esse assunto no meu canal. Confere aí! 😉

Autor

Aspirante a comunicador científico fascinado por foguetes e exploração espacial. Odeia quando mergulham a bolacha no leite.

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