A cada alguns meses, alguns políticos acabam descobrindo que lançar foguetes para o espaço estando próximo à linha do Equador é muito mais eficiente. Descobrem também que temos uma base de lançamento que fica muito próxima a essa linha mas que ainda não foi tão bem aproveitada.

Instalações do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão.

E como todo bom político, eles começam a prometer coisas – que o programa espacial brasileiro vai se desenvolver, que grandes lançamentos vão acontecer e até que grandes empresas e organizações estão pleiteando lançar coisas a partir de terras Tupiniquins.

Mas antes de atingirmos qualquer coisa perto disso, existe muita coisa a ser feita em Alcântara. A localização da base é bastante importante, mas está longe de ser um fator totalmente decisivo para o desenvolvimento dela.

Por que estar perto da linha do Equador é importante?

A noção equivocada de que foguetes são lançados diretamente para cima e de encontro com o espaço é bastante comum. Mas a verdade é que a altitude é só uma peça pequena no quebra-cabeças envolvido ao colocar coisas no espaço.

A velocidade ao redor do planeta é o real responsável para que satélites e estações espaciais continuem em órbita. Falando em palavras simples: é basicamente jogar algo rápido o suficiente em direção ao horizonte para que a queda causada pela ação de gravidade seja anulada pela curvatura do planeta.

Canhão orbital de newton

Basicamente, jogar algo para frente e errar o chão constantemente.

Não jogue lixo espacial no meu quintal

Toda essa velocidade acaba criando alguns problemas não intencionais: estágios de foguetes já utilizados caindo do céu com algum restinho de combustível e oxidante pronto para causar uma explosão.

Como expliquei nesse vídeo aqui, foguetes precisam soltar partes desnecessárias em seu caminho para uma órbita estável. Estar próximo de áreas despovoadas é, então, crucial para garantir a segurança de um lançamento.

Menos para a China. Eles não estão nem aí se seus estágios com combustível de alta toxicidade caem sobre casas.

Primeiro estágio do Long March 3B caindo em vilarejo.

Oceanos são ótimos para isso. Milhares de quilômetros quadrados sem um único ser humano para correr perigo.

Beleza, então por que Alcântara (ainda) não é um bom lugar para lançamentos?

Além da proximidade à linha do Equador e a segurança de um oceano aberto à sua frente, uma base de lançamento também precisa de uma infraestrutura adequada para ser capaz de receber grandes lançamentos. E Alcântara peca muito nisso.

Estamos falando não só das plataformas de lançamento em si, mas também das vias de acesso rodoviário, marítimo e aeroportuário. Alcântara não é uma cidade tão desenvolvida assim.

Porto de Alcântara - Visão aérea
Porto de Alcântara

Transportar coisas tão grandes como o Falcon 9, o Saturn V ou o Ônibus Espacial foram desafios gigantescos de engenharia e logística. O primeiro estágio do Saturn V, por exemplo, chegava ao Cabo Canaveral de navio depois de percorrer todo o rio Mississipi.

Barca - Transporte Saturn V

E não, transporte aéreo nem sempre dá certo com tecnologia espacial. Os foguetes são grandes demais para caberem mesmo no maior dos aviões.

A infraestrutura já existente no Cabo Canaveral antes das construções dos complexos de lançamento foi um dos principais responsáveis pela escolha do local como espaçoporto dos Estados Unidos. Como já havia uma base militar ali anteriormente, pelo menos o arroz com feijão da infraestrutura já estava pronto.

Os investimentos necessários para construirmos bases de lançamento e começarmos a pensar em ter um programa espacial de verdade são gigantescos. Gastar tanto dinheiro assim requer uma visão de longo prazo, algo bastante raro em governos brasileiros.

Quer entender um pouco melhor tudo isso? Veja meu vídeo!

Autor

Aspirante a comunicador científico fascinado por foguetes e exploração espacial. Odeia quando mergulham a bolacha no leite.