Sobreviver no vácuo do espaço não é nada fácil. Pessoas são sacos molengas cheios de carne, ossos e órgãos extremamente sensíveis – qualquer coisinha mais bruta já faz um estrago. E o espaço não é nada agradável conosco e não liga para o nosso espírito aventureiro – esteja despreparado e você será morto em segundos.

Para manter astronautas vivos e saudáveis, precisamos nos preocupar com as variações absurdas de temperatura, reposição de O2, remoção de CO2, pressão atmosférica, remoção de calor, descarte de resíduos corporais, radiação solar e cósmica e outros muitos sistemas que mantém tudo isso funcionando.

Fazer isso dentro de uma cápsula é relativamente tranquilo. Há bastante espaço e é possível utilizar materiais resistentes que são mais apropriados para esse tipo de situação. Mas quando falamos de caminhadas espaciais, a coisa fica muito mais complicada.

Precisamos de flexibilidade para realizar movimentos e de proteção para não expormos nosso frágil corpinho aos horrores do espaço. Tudo isso tem que caber em um equipamento do tamanho de um ser humano. Não é nada fácil.

Alexei Leonov e a primeira caminhada espacial

No dia 18 de março de 1965, os russos Alexei Leonov e Pavel Belyvayev foram lançados ao espaço por um foguete R-7, a bordo da Voskhod 2, a segunda nave espacial soviética do Programa Voskhod.

O objetivo primário da missão era realizar a primeira caminhada espacial antes dos americanos, que conseguiram o feito apenas 2 meses depois com o astronauta Ed White.

Depois de chegarem em órbita, Belyayev estendeu o airlock inflável equipado na nave enquanto Leonov se preparava para a caminhada. Airlocks são áreas projetadas para astronautas ou equipamentos transicionarem de um ambiente atmosférico para o vácuo do espaço sem precisar remover todo o ar da nave.

Diferente da Voskhod 2 e da Estação Espacial Internacional, o Módulo Lunar do programa Apollo não precisava de um airlock, já que os 2 astronautas a bordo estariam vestindo trajes espaciais.

Mas de volta à história:

Leonov se espremeu dentro do airlock e fechou a escotilha enquanto Belyayev, dentro da nave, acionava os comandos de equalização de pressão e esperava pelo melhor. Depois da remoção do ar de dentro do airlock, Leonov pôde abrir a escotilha externa, expondo-se totalmente ao espaço.

As únicas tarefas do astronauta eram prender a câmera que gravaria sua caminhada no airlock e tirar algumas fotos com outra câmera presa em seu peito. Coisa simples e rápida.

Mas assim que saiu e realizou a primeira tarefa, Leonov percebeu que algo não estava certo. Seu traje havia inflado demais – suas mãos não alcançavam os dedos das luvas e seus pés saíram das botas. Se não fizesse nada, o astronauta não conseguiria se encolher o suficiente para entrar no airlock novamente.

Meu traje estava ficando deformado. Minhas mãos saíram das luvas e meus pés saíram das botas. O traje parecia estar solto ao redor do meu corpo. Eu precisava fazer alguma coisa. Eu não conseguia me puxar de volta usando o cordão. E mais, com esse traje deformado, seria impossível caber no airlock.

Alexei Leonov

Flutuando em suor dentro do traje deformado, Leonov decidiu quebrar o protocolo e não comunicar sua situação para o centro de controle da missão. Sabendo que o mundo todo estaria acompanhando sua missão, o astronauta procurou resolver o problema sozinho.

Com bastante esforço, Leonov conseguiu abrir uma válvula e removeu uma quantidade considerável do oxigênio em seu traje, arriscando sofrer de hipoxia ou mal de descompressão. O esforço desprendido por ele fez com que a temperatura de seu corpo aumentasse drasticamente, correndo o risco de sofrer com os sintomas de insolação.

O traje não estava preparado para lidar com isso. Era para ser uma caminhada rápida, sem muito esforço e com o objetivo único de ganhar mais uma das batalhas da corrida espacial. Assim como muitas tecnologias espaciais soviéticas da época, o traje cumpria seu propósito mais básico: manter o astronauta vivo por alguns minutos fora da Voskhod 2.

Depois de esvaziar seu traje e com bastante esforço, Leonev conseguiu se espremer para dentro do airlock junto com a câmera e o cordão umbilical em que estava preso. Mas, ao invés de entrar com os pés primeiro, o astronauta acabou entrando de cabeça, precisando virar dentro daquele pequeno espaço para conseguir fechar a escotilha externa.

Depois de todo esse perrengue, Leonev conseguiu entrar e finalmente remover seu traje em segurança.

Os problemas não pararam por aí

Depois da caminhada espacial histórica não havia mais motivo para manter o airlock inflável preso à nave. Portanto, os 2 astronautas acionaram as cargas explosivas projetadas para ejetá-lo, mas a força das explosões colocou a nave em uma rotação não desejada, desorientando Leonov e Belyayev.

E para completar o shitstorm, um defeito no sistema de suporte à vida começou a aumentar muito o nível de oxigênio dentro da cabine, aumentando terrivelmente o risco de um incêndio.

Qualquer fagulha perdida no sistema elétrico poderia fazer até mesmo materiais considerados resistentes à chama entrarem em combustão. A tripulação da Apollo 1, 2 anos depois, sofreu as consequências disso em uma situação semelhante.

Os dois tentaram de tudo para diminuir a temperatura e aumentar a umidade da nave para reduzir o risco de um incêndio explosivo. Eventualmente o problema foi resolvido e o nível de oxigênio parou de subir.

A reentrada na atmosfera

Algumas horas depois, o momento da reentrada havia chegado. Pouco antes dos retrofoguetes serem ligados e reduzirem a velocidade da nave o suficiente para a reentrada, o sistema automático falhou. Os dois astronautas teriam que fazer tudo manualmente, algo nunca antes feito.

E apesar de não conseguirem controlar tão precisamente quanto o sistema automático, ocorreu tudo bem. Mas, durante a descida, o módulo contendo tanques e outros sistemas não foi ejetado corretamente, o que fez a nave entrar em uma rotação altíssima e colocando os astronautas sob forças G imensas.

Eventualmente a fricção com a atmosfera fez o módulo se desprender da cápsula, permitindo que o restante da descida acontecesse normalmente.

Depois de chegar ao chão, os dois astronautas abriram a escotilha e perceberam que estavam em uma fria floresta, bem longe do ponto de pouso planejado e em um local inacessível para helicópteros.

Os dois precisaram passar a noite ali, em uma temperatura de -25ºC, esperando pela equipe de resgate.

Leonov e Belyayev percorreram 9km em skis junto à equipe de resgate até uma clareira grande o suficiente para um helicóptero pousar.

E assim como muitos acontecimentos na União Soviética, nada disso foi divulgado. A missão foi reportada para o público e para o cenário internacional como um sucesso. Os americanos haviam perdido mais uma batalha da corrida espacial.

A missão de Alexei Leonov e Pavel Belyayev, assim como muitas outras do programa espacial russo, pode ser vista como arriscada e mal planejada. A história poderia ter sido muito diferente e bem mais trágica, mas não há como negar que o incentivo da competição com os americanos e uma boa dose de coragem dos cosmonautas foi o combustível necessário para os avanços da exploração espacial da época.

Autor

Aspirante a comunicador científico fascinado por foguetes e exploração espacial. Odeia quando mergulham a bolacha no leite.

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